poesia da roça

Poemas de Vera

versos escritos com o mesmo carinho de quem cuida da terra

Entre uma tarefa e outra do sítio, Vera Lucia Gonçalves transforma em versos o que vive e observa: as festas e tradições de Nazaré Paulista, a fé na Santa Padroeira e o ritual da paçoca que atravessa gerações. Esta página guarda essas palavras com o cuidado que elas merecem.

Poema Fogadão, de Vera L. Gonçalves

Fogadão? Você sabe o que é Fogadão?

É uma comida gostosa Que só se come aqui no Sertão. Gente da cidade não sabe como isso é bão! É uma carne bem molinha, De boi matado na hora. Esse boi foi bem cuidado, Pro divino entregue, Como prenda e oferta Para essa grande festa. E para cortar as batatas, os festeiros se organizam. Na madrugada se dirigem Para junto à capela. Essa batata cortadinha vai junto à carne molinha Nos panelões fumegantes. A noite inteira vai cozinhando. O cheiro vai se espalhando. A fila logo começa. O povo logo se aperta Na fila do Fogadão. Pode se comprar baratinho a comida, rapidinho, Mas o gostoso da festa É a fila, tão longa que não se vê o fim. A conversa animada, e as gostosas gargalhadas Que só na fila se tem! Enfim, a marmita na mão, Sentar onde? Não tem! Sentar-se no chão da praça, faz parte da tradição. Então vamos lá, meu irmão, e gostoso é bão! A praça se enfeita de gente alegre e satisfeita De uma comida bem-feita, Junto com amor dobrado. O espírito também é saciado. Nazaré da imensidão, Nossa cidade presépio Das águas da fé, e coração.

— Vera L. Gonçalves

Poema A Santa Padroeira, Nossa Senhora de Nazaré, de Vera L. Gonçalves

A Santa Padroeira, Nossa Senhora de Nazaré

Contam que na fundação Da vila de Nazaré Paulista, Havia na vila, então, Dois homens muito turrão. Viviam a se enfrentar. Um dizia: "Na matriz, a Santa há de ficar!" O outro dizia que não. Queria ela em outro lugar. Um dia, para acabar E com a discórdia findar, Resolveram que iriam, Na noite, em campana ficar, Esperando que a Santa resolvesse Onde queria ficar. Não se sabe se dormiram E não viram o dia raiar, Só se sabe que naquele dia, Naquela certania, Na matriz foram encontrar A Santa. Na matriz estava E lá até hoje está, A cidade a abençoar...

— Vera L. Gonçalves

Poema A entrega da paçoca, de Vera L. Gonçalves

A entrega da paçoca

Quando chega o mês de maio É grande a empolgação. Vem gente de todo lado pra fazer a torrefação. É um cheiro bem gostoso que invade a imensidão. No MAMBRE, ou no FAE, os tachos vão esquentando. Que faz o amendoim dançar. E depois com certeza o monjolo vai funcionar. E a força da natureza faz a água jorrar. Com as batidas do monjolo que quase parece tocar Uma música bem gostosa de se escutar. Aí o milagre acontece, o amendoim bem socadinho, em paçoca transformar. Chegou o dia da festa. Os carros de boi vão enfeitar. Pra levar toda a paçoca para o Padre abençoar. É lindo ouvir o som que invade o lugar. O som que faz as rodas dos carros de boi a passar. Só quem ouve pode entender. O coração bate mais forte que as lágrimas fazem rolar.

— Vera L. Gonçalves

“O coração bate mais forte que as lágrimas fazem rolar.”

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